Simetria

Terminada a carta, assinou. Sua inicial e um ponto, como era de costume. Porém, desta vez, hesitou ligeiramente. Não poderia deixar margem para lhe apontassem como reprodutora inócua de padrões de uso alheios. Abriu o antigo bloco de anotações, no qual jaziam outras cartas, que desconheciam seus interlocutores e que permaneceriam testemunhas de seus esforços de conectar-se com outros de sua espécie. Imediatamente, veio a lembrança. Abriu a caixa de e-mails, e em um escrito qualquer, alguém lhe chamava a atenção pra sua assinatura. Estava se apagando, dizia, ou era a representação gráfica do desejo de desmaterializar-se enquanto indivíduo, dissolver-se em outras entidades e o que seguia era então uma profusão de clichês, de leituras baratas da psicanálise. A pontada no estômago a fez deletar a mensagem. Quem diabos poderia querer estabelecer relação tão arbitrária sobre a forma com a qual escolhera se desvelar (ou não completamente) àquilo que lhe interessava? Ora, sempre fora sua peculiaridade, por que deveria inventar-se uma outra completamente artificial, apenas como justificativa de uma ação inadvertida, a cópia, que sequer lhe havia passado pelo cabeça até bem pouco tempo atrás? Lembrou-se então de uma pintura, na qual a mulher permanecia coberta, não se despia perante o olhar do homem. Despir-se daquele véu seria tão ambíguo como quase todas as coisas o são, se analisadas durante muito tempo, e não representava necessariamente pudor ou liberdade, medo ou submissão ou qualquer outro par que se quisesse estabelecer. Antes, era algo anterior mesmo a questão de gênero, não era mais o vetor homem mulher, era a prenúncia de um reconhecimento – a repulsa ou a atração – de seu símile, e todas as representações decorrentes da aproximação daquilo que muito se assemelha, e imediatamente, se diferencia. Imaginou-se consertando a inicial, automaticamente após alguns toque no teclado, completou seu nome. Já não se reconhecia. Apagou e voltou a colocar o ponto. Deixe que julguem. Sempre havia gostado de pontos, não seria agora que deixaria de usá-los.

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