Intersecção (ou o quanto do ‘eu’ está no ‘outro’)

Conversando, um dia desses, com um amigo, discutíamos a respeito dos diferentes modos de cercear os limites da personalidade de um indivíduo e acabamos escorregando em direção ao teste elaborado por Briggs e Myers a partir dos tipos psicológicos de Jung. Aqui, faço um adendo necessário: não que eu acredite absolutamente nestes modos muito gerais de classificar subjetividades, porém: 1) é um tema que nos conduz necessariamente a algumas discussões fundamentais sobre o “eu sou” e o “eu estou” no mundo 2) é reconfortante acreditar (um verbo não-factivo, pois não) que aqueles traços socialmente indesejáveis – sim, estou falando da introspecção, da timidez, do “recato” de certos indivíduos – são também socialmente compartilhados. Você é estranho, mas não é estranho sozinho. Ok. Rapidamente, o teste consiste em responder uma série razoavelmente de perguntas entre os extremos (eles inclusive) de concordo plenamente e discordo plenamente. O teste é baseado naquilo que os especialistas chamam de dicotomias (são quatro): extroversão x introspecção, sensorial x intuição, razão x emoção, julgamento x percepção. Temos assim: E x I; S x N; T (‘Thinking’) x F (‘Feeling’); J x P. Lembro ter feito o tal teste em alguma das intermináveis sessões com algum psicoterapeuta lá pelos 20 anos. Na época, acreditava-me curada de certos “males” adolescentes e de posse daquilo que seria a minha “personalidade definitiva” (naïve, eu sei). Na época, o resultado era INFP (introspecção, intuição, emoção, percepção). O grupo de temperamento era idealista. Eu me orgulhava desse resultado, ostentava como uma condecoração, uma forma de dizer: “Veja, eu sou introspectiva, altamente emotiva, orientada pelos sentimentos e não há nada de errado nisso.” Era praticamente uma desculpa para uma presumida hipersensibilidade e, em decorrência disso, uma instabilidade assustadora. É quando eu percebo que não é só uma questão individual, tem uma relação profunda com a diferenciação homem e mulher, reforçada continuamente, sem brechas: o homem é racional, a mulher emotiva; o homem pensa, a mulher sente; o homem é representado pelo cérebro, a mulher pelo coração. Oras. É sabido que o cérebro é o centro da nossa racionalidade, então dizer que a mulher pensa com o coração (um órgão vital, claro, mas cuja função é garantir a chegada contínua do sangue ao corpo) é o mesmo que assumir que a mulher não pensa. Ok, vinte e tantos anos, influenciada desde muito nova pelo Romantismo e alguns de seus precursores / dissidentes (assumo que entrei no curso de Letras pra ler Baudelaire no original) e orgulhosa de ostentar a minha etiqueta de indivíduo supersensível. Achava, verdadeiramente, que o meu ser/estar no mundo era exclusivamente vinculado aquilo que se convencionou chamar de ‘amor’, ‘paixão’ (seja lá o que isso que signifique ou se significa algo). Por isso a minha atração mórbida por algumas figuras: Camille Claudel, Adèle Hugo, Sylvia Plath. Tudo aquilo que era loucura, passional me atraía. (E atrai ainda, confesso, mas agora eu sou mais atraída pelo tipo gênio louco altamente racional, fazendo contas, pensando em equações, vendo abstrações onde eu só vejo um monte de coisas sem sentido algum, enfim…) Tá, divaguei, mas o que isso tem a ver com a personalidade? Fiz, logo em seguida, o teste novamente e tentei ser franca (da maneira como aprendi a ser, na França). Às vezes retornava uma pergunta e respondia o que acreditava mais adequado, ainda que me envergonhasse ou ainda que eu desejasse ser de outra forma. Não mudou muito, mas o que mudou é sintomático: INTP. Sai o sentimento, entra a razão. Isso resume todos os processos pelos quais tenho passado a partir dos 26, 27 anos. É claro, é apenas um indício pra entender diversas coisas que estão ainda muito recentes, nebulosas. Tenho achado um processo fantástico. Uma racional a mais para o mundo (acho que só tenho a ganhar com isso).

Na vitrola (porque afinal, sou movida a música, no fim das contas): http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=aGSKrC7dGcY&feature=endscreen

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