Tentativas de tradução #1 – “La Peste”

Alguns excertos, toscamente traduzidos, dessa obra extraordinária do Camus, “La Peste” (1947).

“Uma maneira cômoda de conhecer a cidade é perceber como as pessoas, que nela vivem, trabalham, amam e morrem. Aqui, talvez por efeito do clima, tudo isso se faz ao mesmo tempo, do mesmo modo frenético e ausente e significa que nós nos entediamos e nos aplicamos a desenvolver certos hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas sempre para enriquecerem. Se interessam, especialmente, pelo comércio e ocupam-se antes de tudo, e segundo o que eles próprios afirmam, a fazer negócios. Naturalmente, eles também tem gosto pelos prazeres mais simples, amam as mulheres, os filmes no cinema, os banhos de mar. Porém, racionalmente, esses prazeres restringem-se ao sábado à noite e ao domingo, ficando, os outros dias, livres para se ganhar dinheiro.  De noite, enquanto deixam seus escritórios, nossos cidadãos se reúnem sempre nos mesmos horários nos cafés, passeiam pelas mesmas ruas ou permanecem nas sacadas de suas casas. Os desejos dos mais jovens são fugazes e violentos, enquanto os dos mais velhos não ultrapassam às associações de bocha, os jantares entre amigos ou os locais onde se joga baralho.” (p. 11)

“Nesses extremos da solidão, não se podia esperar a ajuda dos vizinhos, no fim das contas, e ficava-se sozinho, cada qual com sua preocupação. Se alguém dentre nós tentasse, por acaso, expressar-se sobre seus sentimentos, a resposta que receberia, não importa qual fosse, era inevitavelmente ferina. Essa pessoa perceberia, então, que ela e seu interlocutor não falavam sobre as mesmas coisas, porque ela se expressava depois de longos dias de reflexões e sofrimentos e a imagem que queria passar havia sido cozida lentamente, no fogo da espera e da paixão. O outro, ao contrário, imaginava uma emoção convencional, uma dor vendida nas feiras, uma melancolia seriada. Bem recebida ou hostilizada, a resposta acabava esbarrando na falsidade e finalmente, era preciso renunciar a essa tentativa de diálogo. Ou, para aqueles que não suportavam o silêncio e que não eram compreendidos pelos outros, pois esses últimos não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem dos sentimentos, restava então a resignação em adotar essa língua das feiras e passar a falar, eles também, sobre o mundo ordinário, o das relações simplórias, das notícias de jornal, da crônica quotidiana de qualquer tipo. Aí ainda, as dores mais verdadeiras imploram pelo modo de se traduzirem em fórmulas mundanas de diálogos. Foi somente a esse preço que os prisioneiros da peste puderam, afinal, obter a compaixão de seus síndicos ou o interesse de seus ouvintes.” (p.74)

Essa segunda parte foi um tapa tão bem dado (mas tão bem dado), que eu ainda não consegui digerir. Simplesmente resume como eu me sinto em relação à sociedade, ao(s) outros e essa complicada relação. Sempre fico receosa quando um livro me incomoda muito, pois temo descobrir (ou confirmar), no final, que não há mesmo uma ‘salvação’ para os ‘incomunicáveis’.

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

E aí? O que você tem para falar sobre isso tudo?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s