Carta de um anti-Anna Karina para Pierrot ou Sobre quando Pierrot se perdeu

“Saiba, Pierrot, que tentei significar nosso encontro de algum modo, atribuí-lo a um complexo jogo de xadrez executado displicentemente pelo inconsciente coletivo, relacioná-lo com algum fenômeno natural de compensação, mas então percebo o quanto fui tolo. Na medida em que fui profundamente transformado por aquilo que tu nem sabes que me deu, tu não fostes afetado por nada que eu pudesse oferecer em troca. Tu te orgulhas de ser um homem pronto, Pierrot. Pronto e separado dos outros homens, porque sabes e observas demais, compreendes aonde os outros erram, mas tu segues o mesmo caminho e talvez nem se dê conta. Critica o hedonismo excessivo de seus semelhantes, ridiculariza a todos utilizando do teu conhecimento aprofundado em certas áreas do conhecimento, não economiza em distribuir farpas, mas te faltou análise, mais detalhada, meu querido Pierrot. Estás por cima. És socialmente integrado, apesar de aparentar que não. Esteticamente bonito.  Estás em direção ao ápice de tua carreira. Não há nenhum impedimento para que tu conquistes teus objetivos. Mas, tu és inteligente demais. E auto-confiante demais. Mas algo te incomoda. Achei que tu estivesses cansado da mesmice, dos padrões artificiais de beleza, de comportamento, de interação social da maneira como é imposta. Afinal, pra quem tem um olho tão ferino, não me parece possível suportar tudo isso ileso. Como tu consegues, Pierrot? Eu estive te observando, não mais do que alguns dias, e não digo que me decepcionei agora, porque não havia criado verdadeiras expectativas. Tu poderias ser diferente, Pierrot. E eu sei que tu o desejas, intimamente, por mais difícil que seja de o admitir, se livrar de certas amarras e convenções. O que tu tens a perder ao dar espaço ao caos, ao admitir o grotesco, o estranho, a precariedade de que é feita a nossa matéria? Semeia o caos, como puder. Instiga a dúvida. Aponta os caminhos menos evidentes. Mas eu estou cansado, Pierrot. Tenho conversado com as pedras. Os homens não falam a minha língua e eu tento aprender a língua dos homens, mas o sentido das suas palavras me escapa. Como chegarei até ti, então? E eu queria poder fazê-lo, pois veja, somaríamos nossos impulsos, não estaríamos sozinhos, encontraríamos outros Pierrots. Eu sei que estás cansado também, eu vejo. Cansado do teu álbum de figurinhas, uma novidade a cada semana, uma frivolidade atrás da outra. Cansado de buscar apenas nos livros. Cansado de ter o Schopenhauer te incomodando, martelando na tua consciência, te perguntando por que todas as tuas leituras ainda não se transformaram em teu sangue. Cansado de buscar respostas nas constelações, na organização social, nos processos históricos, nas equações matemáticas, nos alinhamentos excessivamente geométricos dos paralelepípedos de calçadas, na ordem das notas musicais de uma canção antiga de jazz. Cansado do isolamento provocado pelo seu entendimento. Então, Pierrot, eu estou partindo por enquanto, estou pensando naquela casa longe de tudo, com gatos e livros, e uma plantação de qualquer coisa, com a única função de apaziguar momentaneamente o espírito, reorganizar as sombras particulares, didatizar o caos, dar espaço para o meu lobo da estepe, que não sabe muito bem como se comportar na matilha. Estou indo embora, Pierrot, porque eu cansei de continuar fingindo, não há nada aqui para nós. Nunca fui bom em aparentar o que quer que fosse, Pierrot. Por isso, me procure quando estiveres cansado demais, mas não me procures acreditando que irás encontrar uma Ítaca, pois não temos mais espaço para Ítacas. Não fomos feitos para sermos ilhas, Pierrot,  nem portos. Mas reitero o convite, Pierrot. Vem, quando estiveres disposto a finalmente encarar aquilo que te incomoda. Dirija pra Marseille , quando te lembrares disso  – e se isso te for importante. Saberás como chegar até lá.

ps: Pierrot, não te ofendas. Não te aponto o dedo por mal. Faço isso porque somos símiles. Se te aponto uma falha, é porque a reconheço na minha própria constituição. Faço isso porque conheço-te bem. Lembra da foto que tirei na última vez em que estivemos no mesmo continente? Lembra-te, Pierrot, das árvores e das pedras, das flores e dos pássaros e reconhece-te neles. Lembra-te, Pierrot. Lembra-te.”

ps2: Quer saber, Pierrot? Foda-se. Eu vou escrever sobre você, sobre o que aconteceu e sobre como tudo isso me fere até hoje. Diga tchau pra qualquer poesia ou intenção de generalidade, vou pegar os meus diários. Vou exumar tudo, e depois, eu vou (te) superar. E você? Quando for pra Marseille, não me encontrará mais. Je serai ailleurs.

[escrito e reescrito, feito e refeito.]

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