Coma voluntário (revisto)

Desativei minha conta do facebook, pela segunda vez, hoje às 4h23. Da primeira vez, eu precisava evitar qualquer modo de procrastinar pra escrever o meu mémoire. Agora, a gota d’água foi a grosseria barata para com um aluno, que não tinha nada a ver com os meus problemas e tudo o mais. Acho que estou precisando dar um tempo dessa exposição toda à gente. É claro que eu vou voltar, invariavelmente, pois há diversos amigos com os quais eu só converso por lá, mas por enquanto, eu quero dar um tempo. E eu vou escrever. Comecei hoje um pequeno projeto biográfico-ficcional. E eu vou colocar as minhas leituras em dia. O Bourdieu, o Chomsky, o Chaussur… oops Saussure, a semântica, todos agradecem! (E vou zerar o Diablo 3! Afinal, não só de letras vive a criatura que vos escreve), mas mais importante que tudo, eu vou tentar, seriamente, me aproximar das pessoas sem o intermédio da internet, na vida real, sabe? Boa sorte pra mim, afinal.

ps1: Acabei de mandar um e-mail para um garoto que me intriga. (Às 4:48, seria uma péssima ideia?) De toute façon, isso, agora, é fundamental. As pessoas me interessam pelo que elas são. Quero poder conhecê-las, conversar, aprender novas coisas, compartilhar. Muitas pessoas já me falaram que tem medo de se aproximar de mim (tenho cara feia? sou assustadora? fria?), então preciso fazer algum esforço para mudar isso, pra diminuir esse fosso. Uma tarefa monumental para um caracol.

ps2: E, novamente, sou boicotada pelo meu modus operandi. Quando as coisas se complicam, eu fujo. Legítima defesa? Talvez. Mas que covardia dos diabos! O que eu ganho me boicotando? Eu quero poder ler o que a Cami escreve, quero falar com os meus amigos, conhecer músicas novas. O problema não é o Facebook. O problema sou eu, oras. Eu que aprenda a ter controle. É tão difícil assim?

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L’enfance

Grenoble – 2011 (Rosália)

Il y manque ici une refléxion que j’avais faite à propos de l’enfance, mais ce n’est pas nécessaire. Il faut juste les observer pour avoir les réponses dont on a parfois besoin.

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a broken machine

[Alerta de escrito egocêntrico, altamente pessoal, amargo, porém absolutamente honesto]

Conheci uma banda muito bonitinha essa semana, por acaso, no Youtube. Se chama “The Narrative”, e é claro que eu gostei de cara do nome. Sou obcecada por narrativas e por tudo aquilo que é, e não parece ser (narrativa). Além do nome, gostei muito das músicas. Elas combinam um tom de doçura e de melancolia perfeitos pros meus últimos dias, além , é claro, de ter letras que traduzem tudo aquilo que eu gostaria de dizer, mas que não  consigo por não ser suficientemente eloquente (e esse blog é a prova de que estou tentando, apesar de tudo).

“And she asked for the end of the world,
cracking open the hearts of her girls,
and she asked for the end of a life,
when she swept all the sorrow inside.”

E é claro que essas músicas me fizeram pensar. E eu cheguei a algumas conclusões bem duras. A primeira é que eu ainda sou uma broken machine. E que eu estou tão – ou mais anestesiada do que antes sobre o ‘sentir’ as pessoas e o mundo em si.  Cheguei a pensar, por alguns dias, que esse néant estava cedendo espaço a sentimentos humanos novamente, mas precisei de uma briga interior para perceber que tudo não passava de um falso alarme (…just another false alarm… so, tell me how longe before the last one?), que era só mais uma tentativa de auto-enganação, uma mistura de admiração com senso de oportunidade (perdida, é claro) e uma dose insensata de idealização. A segunda é que não vale mais a pena, não adianta ficar procurando sentidos que, obviamente, não existem. Preciso é tomar vergonha na cara e aprender a conviver com esse buraco emocional / sentimental / cognitivo, porque me parece que é assim que vai ser durante muito tempo ainda, sem garantias de que isso ‘se cure’. Mas o como ainda é muito difícil. Preciso aprender a me maravilhar de novo com os pequenos detalhes da natureza: reconhecer um fractal em um cristal de gelo, distinguir os tons intermediários entre o cinza e o azul escuro em um pôr-do-sol de um dia meio chuvoso, ler a trajetória das nuvens, reconhecer os padrões das ondas conforme as marés. Talvez, quando isso tudo voltar a ‘me tocar’, eu possa tentar o mesmo com os humanos. Enquanto isso, vamos forçando com tudo aquilo que é doloroso, pra ver até onde posso aguentar, pra continuar acreditando que eu estou aqui, que eu não sou a alucinação de algum esquizofrênico.E preciso continuar sustentando a minha postura de olhar o abismo sempre, e resistir. A última conclusão é que não, eu não faço e tampouco irei fazer a diferença por aqui, nem em lugar algum (ainda que o fazer a diferença já fosse realista, eu imaginava algo com uma parte realmente desprezível de um todo). Dupla implicação: uma concepção ainda mais realista do que eu sou e do meu papel no mundo e uma liberdade absoluta de escolha. Já passou da hora de cortar as raízes. É bobo escrever tudo isso, mas eu só consigo racionalizar depois de verbalizar, e principalmente depois de escrever. Porque a escrita salva a minha vida diariamente – e na maioria das vezes, a escrita de estranhos.

ps: Acho que essa música do ‘The Narratives’ me lembra um pouco o animê ‘Nana’, sabe-se lá porquê.

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Carta de um anti-Anna Karina para Pierrot ou Sobre quando Pierrot se perdeu

“Saiba, Pierrot, que tentei significar nosso encontro de algum modo, atribuí-lo a um complexo jogo de xadrez executado displicentemente pelo inconsciente coletivo, relacioná-lo com algum fenômeno natural de compensação, mas então percebo o quanto fui tolo. Na medida em que fui profundamente transformado por aquilo que tu nem sabes que me deu, tu não fostes afetado por nada que eu pudesse oferecer em troca. Tu te orgulhas de ser um homem pronto, Pierrot. Pronto e separado dos outros homens, porque sabes e observas demais, compreendes aonde os outros erram, mas tu segues o mesmo caminho e talvez nem se dê conta. Critica o hedonismo excessivo de seus semelhantes, ridiculariza a todos utilizando do teu conhecimento aprofundado em certas áreas do conhecimento, não economiza em distribuir farpas, mas te faltou análise, mais detalhada, meu querido Pierrot. Estás por cima. És socialmente integrado, apesar de aparentar que não. Esteticamente bonito.  Estás em direção ao ápice de tua carreira. Não há nenhum impedimento para que tu conquistes teus objetivos. Mas, tu és inteligente demais. E auto-confiante demais. Mas algo te incomoda. Achei que tu estivesses cansado da mesmice, dos padrões artificiais de beleza, de comportamento, de interação social da maneira como é imposta. Afinal, pra quem tem um olho tão ferino, não me parece possível suportar tudo isso ileso. Como tu consegues, Pierrot? Eu estive te observando, não mais do que alguns dias, e não digo que me decepcionei agora, porque não havia criado verdadeiras expectativas. Tu poderias ser diferente, Pierrot. E eu sei que tu o desejas, intimamente, por mais difícil que seja de o admitir, se livrar de certas amarras e convenções. O que tu tens a perder ao dar espaço ao caos, ao admitir o grotesco, o estranho, a precariedade de que é feita a nossa matéria? Semeia o caos, como puder. Instiga a dúvida. Aponta os caminhos menos evidentes. Mas eu estou cansado, Pierrot. Tenho conversado com as pedras. Os homens não falam a minha língua e eu tento aprender a língua dos homens, mas o sentido das suas palavras me escapa. Como chegarei até ti, então? E eu queria poder fazê-lo, pois veja, somaríamos nossos impulsos, não estaríamos sozinhos, encontraríamos outros Pierrots. Eu sei que estás cansado também, eu vejo. Cansado do teu álbum de figurinhas, uma novidade a cada semana, uma frivolidade atrás da outra. Cansado de buscar apenas nos livros. Cansado de ter o Schopenhauer te incomodando, martelando na tua consciência, te perguntando por que todas as tuas leituras ainda não se transformaram em teu sangue. Cansado de buscar respostas nas constelações, na organização social, nos processos históricos, nas equações matemáticas, nos alinhamentos excessivamente geométricos dos paralelepípedos de calçadas, na ordem das notas musicais de uma canção antiga de jazz. Cansado do isolamento provocado pelo seu entendimento. Então, Pierrot, eu estou partindo por enquanto, estou pensando naquela casa longe de tudo, com gatos e livros, e uma plantação de qualquer coisa, com a única função de apaziguar momentaneamente o espírito, reorganizar as sombras particulares, didatizar o caos, dar espaço para o meu lobo da estepe, que não sabe muito bem como se comportar na matilha. Estou indo embora, Pierrot, porque eu cansei de continuar fingindo, não há nada aqui para nós. Nunca fui bom em aparentar o que quer que fosse, Pierrot. Por isso, me procure quando estiveres cansado demais, mas não me procures acreditando que irás encontrar uma Ítaca, pois não temos mais espaço para Ítacas. Não fomos feitos para sermos ilhas, Pierrot,  nem portos. Mas reitero o convite, Pierrot. Vem, quando estiveres disposto a finalmente encarar aquilo que te incomoda. Dirija pra Marseille , quando te lembrares disso  – e se isso te for importante. Saberás como chegar até lá.

ps: Pierrot, não te ofendas. Não te aponto o dedo por mal. Faço isso porque somos símiles. Se te aponto uma falha, é porque a reconheço na minha própria constituição. Faço isso porque conheço-te bem. Lembra da foto que tirei na última vez em que estivemos no mesmo continente? Lembra-te, Pierrot, das árvores e das pedras, das flores e dos pássaros e reconhece-te neles. Lembra-te, Pierrot. Lembra-te.”

ps2: Quer saber, Pierrot? Foda-se. Eu vou escrever sobre você, sobre o que aconteceu e sobre como tudo isso me fere até hoje. Diga tchau pra qualquer poesia ou intenção de generalidade, vou pegar os meus diários. Vou exumar tudo, e depois, eu vou (te) superar. E você? Quando for pra Marseille, não me encontrará mais. Je serai ailleurs.

[escrito e reescrito, feito e refeito.]

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Tentativas de tradução #1 – “La Peste”

Alguns excertos, toscamente traduzidos, dessa obra extraordinária do Camus, “La Peste” (1947).

“Uma maneira cômoda de conhecer a cidade é perceber como as pessoas, que nela vivem, trabalham, amam e morrem. Aqui, talvez por efeito do clima, tudo isso se faz ao mesmo tempo, do mesmo modo frenético e ausente e significa que nós nos entediamos e nos aplicamos a desenvolver certos hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas sempre para enriquecerem. Se interessam, especialmente, pelo comércio e ocupam-se antes de tudo, e segundo o que eles próprios afirmam, a fazer negócios. Naturalmente, eles também tem gosto pelos prazeres mais simples, amam as mulheres, os filmes no cinema, os banhos de mar. Porém, racionalmente, esses prazeres restringem-se ao sábado à noite e ao domingo, ficando, os outros dias, livres para se ganhar dinheiro.  De noite, enquanto deixam seus escritórios, nossos cidadãos se reúnem sempre nos mesmos horários nos cafés, passeiam pelas mesmas ruas ou permanecem nas sacadas de suas casas. Os desejos dos mais jovens são fugazes e violentos, enquanto os dos mais velhos não ultrapassam às associações de bocha, os jantares entre amigos ou os locais onde se joga baralho.” (p. 11)

“Nesses extremos da solidão, não se podia esperar a ajuda dos vizinhos, no fim das contas, e ficava-se sozinho, cada qual com sua preocupação. Se alguém dentre nós tentasse, por acaso, expressar-se sobre seus sentimentos, a resposta que receberia, não importa qual fosse, era inevitavelmente ferina. Essa pessoa perceberia, então, que ela e seu interlocutor não falavam sobre as mesmas coisas, porque ela se expressava depois de longos dias de reflexões e sofrimentos e a imagem que queria passar havia sido cozida lentamente, no fogo da espera e da paixão. O outro, ao contrário, imaginava uma emoção convencional, uma dor vendida nas feiras, uma melancolia seriada. Bem recebida ou hostilizada, a resposta acabava esbarrando na falsidade e finalmente, era preciso renunciar a essa tentativa de diálogo. Ou, para aqueles que não suportavam o silêncio e que não eram compreendidos pelos outros, pois esses últimos não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem dos sentimentos, restava então a resignação em adotar essa língua das feiras e passar a falar, eles também, sobre o mundo ordinário, o das relações simplórias, das notícias de jornal, da crônica quotidiana de qualquer tipo. Aí ainda, as dores mais verdadeiras imploram pelo modo de se traduzirem em fórmulas mundanas de diálogos. Foi somente a esse preço que os prisioneiros da peste puderam, afinal, obter a compaixão de seus síndicos ou o interesse de seus ouvintes.” (p.74)

Essa segunda parte foi um tapa tão bem dado (mas tão bem dado), que eu ainda não consegui digerir. Simplesmente resume como eu me sinto em relação à sociedade, ao(s) outros e essa complicada relação. Sempre fico receosa quando um livro me incomoda muito, pois temo descobrir (ou confirmar), no final, que não há mesmo uma ‘salvação’ para os ‘incomunicáveis’.

 

 

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Sobre o porquê de eu continuar insistindo no curso de letras #1

Genial, na aula de Literatura Brasileira 1: “Umberto Eco comentou que o único tipo de obra ficcional em que o tempo narrativo corresponde ao tempo da ação é o filme pornô.”

 

 

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Play it again…

Tudo aquilo que existe no universo, inclusive ele próprio, emite uma frequência. O cérebro humano emite pulsos eletromagnéticos, que podem ser medidos  em ciclos por segundos (Hertz).  Nosso cérebro possui aproximadamente 1010 neurônios e estima-se que cada neurônio pode estar coberto por 103 a 105 sinapses que recebem estímulos de outros neurônios. Mas o que interessa é: o nosso cérebro vibra, alternando em ondas de ciclos diferentes de acordo com o nível de atividade cerebral.

 O dó central do piano vibra numa frequência de 16,352 Hz. Basta fazer a conexão: pode ser inaudível, mas todos nós somos possuímos uma música, única. É nisso que eu me baseio quando afirmo que não preciso estar com um fone de ouvido pregado às orelhas para ouvir música. Existe música em tudo no mundo. (Obviamente, não estou falando de uma música audível, mas uma música a qual somos – mais ou menos –  sensíveis).

O problema é que nos distraímos do mundo, deixamos de prestar atenção a essas minúncias por causa da nossa reunião de trabalho às 9h ou as con tas para pagar  ou a prova de semiologia, de forma que existem distrações tanto quanto existam atividades humanas. Mas o que eu quero ressaltar: nós somos música. Páre e ouça. “Ouça”. A forma como aquela menina mexe no cabelo e anda, com passos meio curtos, desajeitados; a senhora carregando a sacola de compras; os operários da construção ao lado; o grupo de jovens tomando vinho barato; o rapaz lendo Schopenhauer na escadaria da universidade; a professora de Literatura Brasileira segurando a criança de uma aluna; a caixa do supermercado; meu gato. Todos tem a sua música. Algumas suaves,  sutis, mas fortes, claras. Outras, se constituem como uma cadenza, profunda e reverente. E é claro que elas acompanham nossos estados de espíritos, assim como a nosso o nível de intensidade da atividade cerebral se modifica com apenas uma sentença proferida – para o alívio ou para a preocupação. Desligue o celular. Permita-se uma hora sem pronunciar palavra. Deixe o fone de ouvido em casa. Feche os olhos em público. Tem músicas, que eu gostaria de não ter que deixar ouvir. Nunca.

[Que tal uma hora de ondas alpha, minha gente? http://www.youtube.com/watch?v=gkovlEKa3-U]

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